Mensagem do Presidente

3 Junho de 2014 - Tomada de Posse

Minhas Senhoras e meus Senhores, em geral, Exmos. e Distintos Convidados.

Agradeço a vossa presença que muito honra esta cerimónia, sendo ainda um prazer receber-vos na casa dos Pilotos. Esta Associação é a entidade máxima de representação dos Pilotos Portugueses de Linha Aérea, sendo o seu moto: “APPLA a Voz dos Pilotos”. Assim, cabe exclusivamente à APPLA falar em nome de todos os Pilotos Portugueses de Linha Aérea em questões técnicas. Não atender a esta questão será sinónimo de não entender o sumo interesse dos Pilotos Portugueses, interesse que é, em questões técnicas, ou seja, no que respeita à APPLA, coincidente com o interesse da Indústria do Transporte Aéreo.

Seguir nas pegadas dos Pilotos que fundaram e lideraram esta casa é enorme responsabilidade, mas desafio que abraço com determinação. Esta Associação, fundada pouco depois da revolução do 25 de Abril de 1974, encerra uma rica história, repleta de conhecimento e sabedoria de uma classe profissional que desperta uma imagem de magia e sonhos inalcançáveis aos olhos e pensamento de crianças e jovens, mas também de adultos.

Ainda há uns poucos anos atrás uma criança, vivendo em Santa Maria, nos Açores, onde tudo gravitava em torno do aeroporto internacional, durante as férias levantava-se de madrugada para ir com o pai ver os aviões que aterravam e, quando os Comandantes deixavam, ia até ao avião, com o coração a saltitar, entrava no cockpit, sentava-se aos comandos e de imediato começava a sonhar com voos intermináveis, tempestades a ultrapassar e outras aventuras que invadem o imaginário dos mais pequenos. Mais tarde, essa criança, já homem, continuou a sonhar com o voo, mas, confessa-se, o charme e beleza das assistentes de bordo também emprestavam outras asas ao pensamento. Cumpriu-se mais tarde o seu imaginário e recebeu asas tornando-se aviador e casando-se com uma bonita assistente de bordo. Desta pequena história que acabo de vos contar, qualquer comparação com a minha pessoa não é mera coincidência.

Dizia Saint-Exupéry que "A grandeza de uma profissão é talvez, antes de tudo, unir os homens”. Esta é uma das razões pela qual a Profissão de Piloto de Linha Aérea se reveste de rara nobreza, pois une os seres humanos por todo o globo. É verdade que, por vezes, também os separa, mas ainda assim, quando tal acontece, conforme foi o mais recente êxodo dos Portugueses que se viram obrigados a abandonar Portugal devido à actual crise, onde infelizmente os Pilotos não foram excepção, a separação está impregnada de esperança de vida melhor ou de uma aventura com génese noutro local, cedendo a separação lugar à comunhão de novas amizades.

Ser Piloto de Linha Aérea revela-se também como um quase paradoxo, pois o dom de voar, de pilotar, é raro prazer, requerendo enorme coordenação motora, inteligência, extrema rapidez de pensamento e uma inequívoca ausência de receio de tomar decisões que, algumas vezes, fazem a diferença entre, bem, chamemos-lhe apenas, um bom e um mau dia. Mas o paradoxo reside no contraste entre este orgulho, binómio complexo de vaidade-humildade, esta monumental dádiva de se conseguir imolar as aves, ocupando espaço outrora exclusivo destas mesmas aves. Tal, por vezes, contrastada com o extremo cansaço que um piloto profissional sente no exercício da sua profissão, o qual pode assumir níveis de fadiga física e mental quase insuportáveis, sendo esta uma das principais razões para que só abrace esta profissão quem realmente tem condições e perfil psicológico para tal. Esta mesma razão, leva a que o sector, em especial as autoridades aeronáuticas, devam pensar e publicar regulamentação adequada, que deverá atender a estudos científicos, isentos, sobre fadiga, pois só assim se poderá manter o nível desejado de Segurança Aérea. Um passo de gigante foi dado nesse sentido quando Pilotos, através da IFALPA, a maior Federação Internacional de Pilotos, a IATA, enorme associação internacional de empresas de transporte aéreo e a ICAO, maior entidade reguladora do sector aeronáutico a nível internacional, se uniram e produziram o FRMS – Fatigue Risk Management System, advindo de premissas científicas e operacionais, beneficiando do trabalho de reputados cientistas, alguns dos quais integram ou integraram a NASA.

O puro Piloto de Linha Aérea não chama profissão ao que faz, mas sim Missão, uma vez que é de tal que se trata. A responsabilidade inerente à Segurança do transporte de vidas humanas, faz com que os verdadeiros Pilotos de Linha Aérea sintam que, mais do que uma Profissão, desempenham uma Missão em cada voo. Sendo associações, como a APPLA, profundas conhecedoras do melhor perfil para o exercício da função de Piloto de Linha Aérea, devem então ser chamadas a pronunciar-se e, em última instância, a decidir, se o Piloto tem o perfil adequado para desenvolver a nobre e séria Missão de Piloto de Linha Aérea.

Esta associação tem uma linda imagem de Nossa Senhora do Ar no exterior, a qual foi erguida durante a Presidência do Comandante Sottomayor. A imagem foi inaugurada pelo saudoso D. José Policarpo, que chegou um pouco a correr à cerimónia, começando a falar de forma ainda um pouco ofegante. Recordo as suas palavras, que foram as seguintes: “Sempre que entro num avião rezo a Deus e sinto grande conforto na oração. No entanto, confesso que sinto também enorme conforto por saber que os senhores estão lá à frente a pilotar o avião”. Penso que, com isto, pouco mais haverá a dizer sobre a responsabilidade e a nobreza de ser Piloto de Linha Aérea.

Mas a verdade é que não são só os Pilotos que encerram esta nobreza, pois o Transporte Aéreo está incluído na elite das actividades consideradas ultra seguras, sendo os acidentes uma raridade. Ainda assim, inerente ao voo está sempre a probabilidade de acontecimento catastrófico, quer por actos ilícitos, quer por outras razões.

Outros acontecimentos têm final feliz, conforme foi a amaragem do voo 1549 da US Airways no Rio Hudson, ou a aterragem de emergência do voo 32 da Qantas, lembrando-nos que o Piloto é o último reduto da Segurança Aérea. Advindo deste facto, devem ser dadas condições aos Pilotos para que possam ter uma vida privada, mas também profissional, em que os hábitos e horários sejam compatíveis com níveis de fadiga que lhes permitam executar a missão em Segurança, pois foram e são os Pilotos os principais agentes da Segurança Aérea. Foram os Pilotos e a Tecnologia usada pelos Pilotos que catapultaram o Transporte Aéreo para o clube elitista dos sistemas ultra seguros. Como tal, sempre que se fala em segurança e os representantes legítimos dos Pilotos se pronunciam, no caso de questões de segurança, a APPLA, agentes do sector, opinião pública e poder politico ouvem atentamente a APPLA. Quando a APPLA, que se assume como principal e fiel parceira do Transporte Aéreo Português, se vê obrigada a vir a púbico falar de Segurança Aérea, é por si só indicação de que algo está menos bem, uma vez que será fácil entender que os Pilotos, para além de profundos conhecedores e praticantes de Segurança Aérea, são os principais interessados na mais elevada Segurança, uma vez que ocupam a mesma aeronave que os seus passageiros.

Os transporte aéreo é uma actividade nevrálgica para a sociedade, contribuindo enormemente para a economia global. O transporte aéreo, que tem no seu cerne os Pilotos, é a principal via facilitadora do crescimento económico e social, facilitando a circulação de pessoas e bens por todo o mundo. No entanto, historicamente, é extremamente difícil para as empresas de transporte aéreo terem retorno do seu investimento, encontrando assim enormes dificuldades em tornar esta indústria atractiva aos investidores. Esta questão pragmática eleva o nível do desafio, no sentido de se encontrar um equilíbrio no ciclo de produção e de protecção, entenda-se, Segurança Aérea. Perante o extremamente difícil equilíbrio entre produção e Segurança, torna-se absolutamente necessário resistir ao facilitismo de trocar segurança por retorno financeiro fácil, perigo este que nos é magnificamente explicado por Erik Hollnagel, que, a meu convite, visitará brevemente esta casa, no seu extraordinário trabalho de pesquisa, virada livro, E.T.T.O. – Efficiency-Thoroughness Trade-Off.

Posto isto, é necessário dizer que os paradigmas se instalaram também para serem derrubados pelo paradigma emergente, através do chamado corte epistemológico. A Segurança do transporte aéreo tem, desde há alguns anos, um novo paradigma que se chama SMS – Safety Management System, que nos ensina que a segurança aérea, ao contrário do anterior paradigma, à luz do qual aprendemos que a segurança aérea era um bem absoluto, imutável e sem compromissos, afinal, de forma pragmática, nada mais é do que um processo que deve ser responsavelmente gerido no seio da empresa.

A Convenção de Tóquio, que viu a luz em 1963, incide essencialmente sobre aspectos legais e dá, sem margem para dúvida, Autoridade ao Comandante, uma vez que entende ser necessário manter o voo seguro e a ordem a bordo das aeronaves. Em Portugal existe ainda o Decreto-Lei 71/84, visto e aprovado em Conselho de Ministros a 2 de Fevereiro de 1984. Este Decreto-Lei dá autoridade ao Comandante de Aeronave, fazendo deste, à imagem da Convenção de Tóquio, em condições específicas, a única Autoridade a bordo. Podemos então entender uma aeronave com as portas fechadas e com os passageiros a bordo, como uma mini urbe, em que o agente da Lei, o Juiz, o Advogado, em suma, a autoridade única, é o Comandante. No que concerne ao exercício da função de Comandante de Aeronave, não pode haver maior responsabilização sem correspondente e inequívoco reforço da sua Autoridade, a qual, obviamente, deverá ser exercida de forma responsável e com a elevação e a idoneidade que a função requer. A liberalização do Transporte Aéreo, algo que poderá vir ao encontro das necessidade dos utentes, nada deverá ter a ver com a liberalização da actividade de Piloto de Linha Aérea, muito menos com a autoridade do Comandante, a qual deverá ser entendida como algo de extrema responsabilidade e necessidade para a Segurança Aérea.

Pelas razões anteriormente abordadas, a APPLA constitui-se parceira do transporte aéreo Português, fiel aos seus parceiros, concordando e discordando, mas fazendo-o sempre com conhecimento, elevação, ponderação, lealdade e responsabilidade. É por isso que hoje, muitos dos presentes não são apenas parceiros institucionais, mas também amigos, sabendo os senhores que têm também em mim e na minha direcção, amigos que, quando apropriado, vos darão frontalmente o seu parecer.

Aproveito esta oportunidade para fazer um agradecimento a todos os Pilotos que de forma quase voluntária, ao longo de décadas têm desempenhado funções nas instituições dos pilotos, não apenas na APPLA, mas também nas outras Instituições dos Pilotos que habitam esta casa, onde se incluiu o Gabinete Técnico da APPLA, cujo trabalho, quase sempre na sombra, é imprescindível.

Agradeço também a todos os funcionários desta casa, cuja dedicação aos Pilotos muitas vezes transcende as suas obrigações profissionais, merecendo, por isso, o nosso agradecimento.

No entanto, são sempre as famílias daqueles que desempenham funções nos APPLA, em especial nas Direcções, quem mais sofre com o afastamento familiar. Por isso, deixo aqui um enorme agradecimento a todas as famílias do Pilotos que desempenharam e desempenham funções nas Instituições dos Pilotos.

Termino com um agradecimento muito especial e votos de altos voos e de felicidades no desempenho das novas funções aos Órgãos Sociais que hoje tomaram posse, alguns dos quais transitam da equipa anterior, em especial à minha Direcção, todos eles companheiros e amigos com quem tenho partilhado boa parte da minha vida.

Liderar esta Direcção, meus senhores, é para mim uma honra e sabemos que o que aqui nos trouxe pouco tem a ver com a amizade que nos une, mas sim com o sentido pragmático de que devemos dar o nosso contributo para o bem comum e para o bem e elevação dos Pilotos Portugueses de Linha Aérea.

Assim nos deixem trabalhar.

Tenho dito.

<h4>Comandante</h4><p>Miguel Silveira</p>

Comandante

Miguel Silveira