Mensagem do Presidente

Dezembro de 2017

Na página 34 da edição de Dezembro da TOS poderão ler o artigo do Coronel Brandão Ferreira, o qual me levou a escrever esta mensagem, que é dedicada a todos os amantes do mundo da aviação, mas que deve ser matéria para séria reflexão de todos os Pilotos.

Há uma cerimónia antiga, carregada de tradição e de sentido, que é a entrega de asas aos que tiveram a fortuna de terminar com sucesso os seus cursos de Pilotos de Aeronaves. Trata-se da entrega de asas que, na esmagadora maioria dos países, deve ser colocada e usada no lado esquerdo do peito, bem junto ao coração. Há algumas variantes inerentes à entrega das asas.

Uma destas variantes defende que depois de colocada a asa no peito do Aviador, esta deve ser partida em duas, ou cortada ao meio se for de tecido, ficando uma metade na posse do Piloto, e a outra metade na posse de alguém a quem o Piloto decida entregar. Para que a carreira do Piloto seja isenta de azares maiores, dizem os adeptos desta prática, as duas metades da asa só se devem reencontrar no dia em que o Piloto se reforme ou deixe de voar.

Outra variante são as chamadas “asas de sangue”, que são colocadas no peito do Piloto sem a protecção dos pinos, seguida de uma forte pancada sobre a asa dada por quem a apõe, fazendo com que os pinos se cravem no peito do Aviador e haja derramamento de sangue.

Independentemente da prática escolhida para a entrega das asas, há algo comum a todas as práticas: só um Piloto pode entregar asas a um Piloto.

Penso que será fácil entender que a cerimónia de aposição de asas no peito do Aviador acarreta um profundo significado, logo, devendo o seu significado ser perpétuo, pois o significado está enraizado na razão e na emoção que fizeram de alguém Piloto, conferindo-lhe a graça rara de emular os pássaros.

Alterar o conceito de ter um não Piloto a entregar a asa a um Piloto retira todo o significado à cerimónia, esvazia o sentir da sua razão de ser, conferindo uma banalidade que levará a que um dia a cerimónia, por pouco ou nenhum significado ter, se perca.

Ter um Piloto a pedir que um não Piloto lhe entregue a asa é algo profundamente néscio. Significa que ainda antes de iniciar a sua carreira, militar ou civil, esse Piloto não assimilou a base da sua aprendizagem: só um pássaro pode ensinar outro pássaro a voar; só um Piloto pode ensinar outro alguém a voar; só um Piloto pode entregar a asa a outro Piloto - as asas são a base de sustentação dos voos que o Piloto irá realizar.

Mensagem do Presidente

Miguel Silveira

Presidente da APPLA - Associação dos Pilotos Portugueses de Linha Aérea

Piloto de Linha Aérea