Mensagem do Presidente

Maio de 2018

Saúde Mental

A EASA - European Aviation Safety Agency tem vindo a propor um quadro de testes obrigatórios de álcool e de substâncias psicotrópicas sobre os Pilotos.

A medida poderá parecer oportuna aos olhos dos leigos, mas para os conhecedores, nada mais será do que a EASA no seu pior, fazendo uso da sua incompreensível obtusidade perante algumas questões de fundo. Seria caso para sugerir que o topo da hierarquia da EASA desse o exemplo e se submetesse ao controlo de semelhantes testes. Afinal de contas, é a EASA que faz as regras que afectam toda uma Indústria...

Cockpit - Saúde Mental - Mensagem do Presidente Maio de 2018 - APPLA

Os Pilotos de Linha Aérea trabalham muitas vezes entre 12 a 15 horas por dia, sujeitos a horários desencontrados, a noites consecutivas perdidas, a grandes diferenças horárias. Trabalham num ambiente equivalente à altitude da Serra da Estrela, em que a humidade é quase zero. Estão expostos às micro-vibrações, têm por baixo deles, no porão dos electrónicos, mais de duzentos computadores a emitirem constantes radiações, que somam às radiações solares e às radiações cósmicas que, em altitude, mesmo junto à moribunda camada de ozono, os atingem sem dó nem piedade.

Por tudo isto, e mais, os relógios biológicos dos Pilotos permanecem descomandados por dias a fio. Para tentarem descansar, entregam-se, muitas vezes, à solidão dos quartos dos hotéis pelo mundo fora, ou a diversos métodos, uns naturais, outros nem tanto, que, muitas vezes, não funcionam. Facilmente se entende que manter qualquer tipo de saúde, física ou mental, não é tarefa fácil para os Pilotos de Linha Aérea, razão pela qual devem ser seleccionados minuciosamente através de rigorosos testes técnicos, médicos, psicotécnicos e psicológicos. Ainda assim, todos parecem ficar atónitos quando são difundidas notícias, extremamente raras, sobre um Piloto que, por exemplo, se apresentou para o serviço de voo sobre o efeito de uma substância proibida. Na realidade, surpreendente será saber que estes casos são muito mais raros do que, por exemplo, os próprios acontecimentos catastróficos que raramente acontecem neste sector, um dos poucos sistemas ultra-seguros.

Só que, meio a tudo isto, a Indústria necessita de 600 mil novos Pilotos até 2032, de modo que há que alargar a malha do filtro, há que formar Pilotos como se de fornadas de um material comestível se tratasse. Na realidade, não estaremos muito longe da verdade, pois sairão, quase certamente, fornadas de Pilotos que serão depois “triturados” pela mesma Indústria que os formou, tão depressa comentam um erro ou optem pelas “curas” a que são quase que obrigados, num mero acto de sobrevivência. É estranho (e até mesmo ridículo…) que a EASA acredite que vai resolver todo este fenómeno com testes de substâncias, quando na realidade deveria estar, em meu entender, mais preocupada com a origem do mesmo, e a traçar uma rota para entender e resolver as questões de fundo que podem levar ao consumo de substâncias. Por exemplo, melhor seria que desse ouvidos aos muitos cientistas que foram em sentido contrário ao das actuais FTL – Flight Time Limitations, que ignoram as verdadeiras questões sobre o descanso, a fadiga, a saúde física e mental dos Pilotos.

Por detrás do consumo de substâncias pode ou não residir fadiga crónica ou solidão, mas certamente que residirá sempre um ser humano. Ser um Piloto será caso extremamente raro, segundo a estatística de mais de 60 anos, mas na realidade tanto faz, pois o que realmente importa é atendermos à dignidade inerente à condição e à situação.

Mensagem do Presidente

Miguel Silveira

Presidente da APPLA - Associação dos Pilotos Portugueses de Linha Aérea

Piloto de Linha Aérea